I <3 Soweto

Queira o leitor saber que eu e a Hara na nossa aventura por Johanesburgo (ler mais aqui) continuámos a usar transportes públicos. E quando me refiro aos transportes públicos, não se confunda com um amplo e diverso sistema de transportes públicos como existe na Europa.

Para orientar o leitor, refiro-me a um vasto sistema composto por carrinhas semelhantes  à Toyota Hiace, que fazem as ligações entre cidades e outras localidades, por vezes bem distantes entre si, nas quais não existe nenhuma indicação do trajecto ou das paragens. Isso impele-nos a mandar parar a primeira Toyota Hyace que passa por nós e solicitar informação ao condutor. O condutor manda-nos rapidamente entrar e lá dentro apressamo-nos a pedir mais informações aos restantes passageiros.

Naquela manhã fria mas soalheira de domingo, tivemos que fazer uma mudança de carrinha. Lembro-me bem de ir a descer a primeira carrinha e subitamente uma jovem negra  que ia à nossa frente, dirige-se para nós “Hide your phones! Put your bag at the front!” e segue apressadamente o seu caminho, misturando-se na multidão de transeuntes. Mais à frente, aguardava por nós a Mama que ficou de nos indicar a próxima carrinha para chegar ao nosso destino.

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A Mama africana que de forma solícita nos acompanhou e indicou qual a carrinha que teriamos que apanhar para chegar ao nosso destino – o museu do Apartheid.

Tivemos uma experiência incrível na utilização dos transportes públicos em Joanesburgo, e para além de pagarmos muitos menos, tivemos um envolvimento na vida quotidiana e uma maior proximidade com o seu povo. Optámos por criar uma opinião com base na nossa experiência pessoal.

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Soweto, a (…) km de Johanesburgo é um cone que é sinónimo de segregação racial

Até esta altura ainda não tinha explicado o que é o Soweto. Se observou a imagem anterior já terá chegado à conclusão que Soweto é uma cidade contígua a Johanesburgo. Mas se tiver interessado em saber a importância desta localidade terá que fazer primeiro esta viagem comigo e passar pelas torres de refrigeração de Orlando, tal como nós fizemos na carrinha turística que faz parte de um dos roteiros da HopOn HopOff. Bora lá?

Torres de refrigeração de Orlando

Perto de chegar a Soweto, erguem-se as torres de refrigeração de uma já inexistente central térmoeléctrica a carvão (1942-1998) que serviu JB.

A reutilização destas torres industriais para fins lúdicos, um conceito amplamente difundido na Alemanha (ver Landschaftspark Duisburg), impressionou-me bastante. Aqui é possível fazer por exemplo bungee jumping e aceder ao topo das torres.

A próposito das pinturas de uma das torres de refrigeração, a imagem da Black Madonna, falo-vos da Regina Mundi Church, a maior igreja católica na África do Sul. Esta igreja, localizada no Soweto, alberga a Black Madonna Painting,  uma pintura que representa a Virgem Maria e o pequeno Jesus, ambos negros. Esta criação do artista Larry Scully em 1973 faz parte de uma campanha de angariação de fundos para a educação de sul-africanos negros. Não visitei  a igreja “Regina Mundi”, mas captei uma imagem da Black Madonna numa das torres de refrigeração, como é possível observar na seguinte imagem.

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As torres de refrigeração de uma central térmica a carvão que alimentou electricamente JB após a II Guerra Mundial durante 56 anos. .

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Imponência das torres de refrigeração da central térmica de Orlando.

Identifiquei-me com esta reutilização lúdico-desportiva das torres de refrigeração desta central térmica, uma vez que a minha tese de mestrado centrou-se igualmente numa reutilização de uma das mais potentes centrais termoeléctricas em Portugal – a central termoeléctrica de Setúbal (1979-2012).

I SOWETO

Agora sim, estamos entrar no Soweto. Parados no semáforo, a acompanhar as palavras do nosso guia turístico, e tentanto absorver tanto as informações que ele nos dava, como as imagens que nos envolviam, leio I SOWETO, escrito num muro desprovido de pinturas.

Aproveitando o esclarecimento da wikipedia relativamente ao Soweto:

 (…) foi estabelecida em 1963, para juntar sob uma mesma administração um conjunto de bairros para negros. De acordo com as leis do Apartheid, os negros não podiam viver em áreas reservadas aos brancos; para além dos bairros construídos para alojar os trabalhadores negros das minas de ouro, alguns bairros de cidadãos negros da classe média foram incorporados no Soweto. Em 1983, o Soweto deixou de fazer parte da municipalidade de Joanesburgo, passando a ter o estatuto de cidade e a sua própria administração.

Hoje, com mais calma, auxilio-me nas imagens que na altura continuamente tirava. Estas, retratam fielmente as diferentes zonas do Soweto, umas mais nobres onde as casas são de tijoleira, bairros de lata, onde as habitações são de telhas de chapas.

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No Soweto, africanas utilizam uma das 42 torneiras de água comunitárias para a lavagem de roupa.

Mucoco, casas de chapa!

Agora apresento-vos as zonas mais pobres do Soweto. Aconselho a observar com atenção cada imagem.

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Consegue a nossa imaginação ouvir a chuva a bater cadenciadamente nas telhas de chapa, o vento a faze-las ranger, o frio a entrar sem pudor, o calor a partir sem delicadeza (e que tal este momento de inspiração, hein?).

Pois queira o leitor saber que na África do Sul faz frio. Muito muito frio. Mas também faz calor e por seu turno, faz muito muito calor. A acrescentar a isto, estas casas em telhas de chapa não têm saneamento básico nem electricidade. Reparou nos três sanitários individuais, paralelepípedos paralelos entre si na primeira imagem?

Mas eu diria que, mais admirável ainda é se observarmos a segunda imagem com atenção e repararmos não na mulher que lava a roupa, mas em algo mais subtil, mas como a mulher estende a roupa. Calças com calças, casacos com casacos, camisas com camisas. Pois eu cá não tenho estes preceitos quando estendo a roupa.

Quem me disse que estas casas de chapa são chamadas de mucoco foi o meu amigo moçambicano Jaime. E disse-me mais. Disse-me que era maningue caro alugar estas “casas”, e que nestes bairros vivam não só sul-africanos mas também zimbabueanos, somalis, tanzanianos, cabo-verdianos, moçambicanos, ou seja, uma miríade de nacionalidades que viajam para a África do Sul à procura de melhores condições de vida.

E como se não fossem estas condições já fossem já precárias o suficiente, eis que o guia nos apresenta o que designa como «a zona mais pobre do Soweto».

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Bairro de lata no Soweto, junto à linha ferroviária.

Uma tenda à beira da estrada

Um barbeiro faz tenda num canto contíguo ao passeio, onde colocou um banco e se senta uma negra. Uma imperceptível fila formou-se atrás desta e os dois homens de pé estudam a envolvente. À sombra, um cartão com uma panóplia de penteados de homem está suspenso por fios. Ao sol está o cartaz com a panóplia de penteados para mulher e um sapato solitário. Pergunto-me, ficou por arranjar ou a cola está a secar, pois o barbeiro está de momento a trabalhar.

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Na lona da tenda lê-se Barber shop & Shoe Maker que se traduz por Barbeiro & Sapateiro.

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Mais à frente, à beira da estrada, está um mercado de frutas e legumes, com uma disposição e cores atrativas.

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Vilakazi Street

Numa modesta habitação de tejoleira viveu Nelson Mandela, na rua Vilakazi (Soweto) de 1946 a 1961.

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Casa-museu Nelson Mandela em Vilakuzi Street – Soweto.

Nelson Mandela foi vencedor do prémio nobel da paz em 1993. E Desmond Tutu recebeu  9 anos antes esse mesmo prémio. E o que têm em comum estes dois sul-africanos? Viveram ambos na Rua Vilakazi.

Uma simpatia de gente

Ao passar por vários traunsentes que se preparavam para passar a estrada, colada à janela a fotografar tudo o que se passava à minha volta, fiquei surpreendida com as reacções que obtive. Vários foram aqueles que me retribuiram sorrisos e acenos, ao contrário da experiência que tinha tido na Suazilândia (ler mais aqui).

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Embora um povo com uma história cheia de racismo e intolerância, nem sempre é visível o rancor contra os brancos. Talvez por terem sido influenciados por um grande homem, que a história mundial nunca esquecerá, Nelson Mandela e que influenciará gerações e gerações.

To be free is not merely to cast off one’s chains, but to live in a way that respects and enhances the freedom of others.

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