Johannesburgo, Josy, Joburg

«Após um século de migrações, Joanesburgo é uma metrópole cosmopolita, rica e multicultural, assumindo-se como uma ‘cidade de classe mundial’.

Apesar desta imensa diversidade, sente-se uma enorme segregação, racial e económica, entre diversas zonas da cidade. Num extremo encontram-se brancos, condomínios de luxo, fechados, com carros topo de gama e gigantescos centros comerciais, no outro, negros bairros informais, sem água corrente ou saneamento, onde famílias se amontoam, quase inteiras, em pequenas casas de lata.»

Maputo-Maputo, Um regresso na África Austral, Gonçalo Antunes

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Infindáveis vezes fui pressionada pela Veroca para irmos a Joanesburgo num dos poucos fins de semana que restavam antes da partida final de Moçambique de regresso a Portugal – «Joanesburgo está cheio de vida cultural. Há imensos museus, conferências, mercados… Gostava tanto que fosses comigo. Ias adorar! É uma cidade europeia no meio de África!» insistia ela. Mas eu respondia-lhe «Nem pensar, é super periogosa… mas posso reconsiderar se decidires vires comigo à Ilha de Moçambique (ler mais sobre) ».

Realmente a vontade era escassa para apanhar o intercape, o autocarro que faz Maputo-Joanesburgo que leva perto de 10 horas a conectar estas duas cidades. Já tinha chegado quando apanhámos o intercape para ir para o aeroporto de Joanesburgo e rumar à Cidade do Cabo.

Certo dia sentada ao lado do Sr. Mateus na Nissan Navara vermelha de caixa aberta, que comenta comigo que vai fazer uma viagem a Joanesburgo, visitar família. A ideia de apanhar boleia do Sr. Mateus para uma das capitais da África do Sul era extraordinária. Pensei logo que era uma maneira de dividir despesas e poupar horas de viagem (que teríamos no autocarro). Perfeito!

«Sr. Mateus tem lugares disponíveis no carro?»

Já há muito tempo que não programava uma visita a uma cidade que envolve uma intensa pesquisa – o que há para fazer, o que há para ver, prioritarizar . E passo a pesquisar inúmeras coisas acerca da cidade, da qual só tinha ouvido “é muito muito periogosa!”.

E eis que dou por mim com o entusiasmo da Vera para conhecer Joanesburgo, que para minha desilusão me diz que para esse fim de semana não tem disponibilidade, insistindo não obstante para eu ir (obrigada Vera!).

Ora, após uma longa pesquisa, eis que consigo identificar a lista de sítios que pretendo visitar no fim de semana de 16 e 17 de Julho (2016), tomando notas dos vários sítios, a fim de decidir por qual deles optar:

  • Soweto;
  • Casa do Mandela;
  • Orlando Power Station;
  • Carlton Centre –  também conhecido como o «Top of Africa» , é um dos maiores edifícios de JB e durante vários anos o mais alto da cidade que aloja também um centro comercial;
  • Museu do Apartheid;
  • Lions Park;
  • Sandton City – «um dos melhores lugares para fazer compras na cidade»;
  • Mandela Square;
  • Mining District Walk – museu ao ar livre que representa a história e a legacia da exploração de minas de ouro na África do Sul.
  • Gold Reed City Casino – Casino e parque de diversões, cujo bilhete de entrada permite a visita à réplica de uma vila histórica, que reproduz a cidade de JB pouco depois da descoberta deste mineral em 1886 e ainda uma verdadeira mina subterrânea;
  • Workers Museum – tells the story of migrant labour, how many south africans who came to Jozi to seek their fortune but ended up living under harsh conditions, working in the city’s power stations or further mine fields.
  • Neighbourgoods market – Saturdays famous market situated in JB city centre.
  • Constitutional Hill – em tempos um dos sítios mais opressivos de JB, mas que se tornou numa celebração da democracia e da liberdade.

A Cidade do Ouro – Um pouco de história

Em 1886 foi descoberta aqui a maior concentração de ouro do mundo, razão pela qual é conhecida como a cidade do Ouro.

Para a exploração das minas de ouro eram necessárias tecnologias caras, que implicaram que as maiores casas de financiamento europeu providenciassem capital. Uma vez que os trabalhadores brancos custavam à indústria mais do que os homólogos negros, foram estes últimos indo sendo substituídos pelos brancos, e assim reduzir custos com a mão-de-obra.

Assim, pode-se dizer que não existe outro lugar na África do Sul que tivesse uma mistura cultural tão variada como Joanesburgo. Foi esta combinação e mistura de nações, raças, culturas e línguas que deram a JB o seu caratér único [Apartheid Museum]

Comércio em Joburg

Para conhecer a cidade optámos pelo Hop On Hop Off, um autocarro turístico de dois andares, que inclui várias paragens, nas quais podemos sair e voltar a entrar, tendo em conta os horários disponíveis. Optámos pela versão que inclui Soweto.

Museu do Apartheid

Visitar este museu, tão bem conseguido, é sem dúvida uma forma de compreender a hostilidade patente e tão famosa da África do Sul nos dias de hoje.

Ora, de uma forma muito resumida vou responder a algumas questões de cariz essencial relacionadas com a África do Sul, citanto excertos do livro que faz parte da coleção “A minha vida deu um livro” intitulado Nelson Mandela,  escrito por Albrecht Hagemann; uma edição que veio com a revista Expresso em 2011.

Não pretendo estender-me em explicações, mas apenas auxiliar no processo de compreensão. Escolhi estes excertos porque eu próprio os identifiquei como reveladores perante o meu conhecimento.

O que é o Apartheid?

As eleições parlamentares do ano de 1948 trouxeram para o Partido Nacional, sob a lideranda do eclesiástico africânder Daniel François Malan, uma vitória escassa e igualmente episódica. Os resultados das eleições significava a materialização do programa político racista do apartheid (…).

Apartheid significava a divisão racial estrita. Na verdade, não representava nada de absolutamente novo no âmbito da política racista sul-africana (…). No entanto, o apartheid significava inequivocamente uma radicalização desta política de segregação tradicional, trazendo, ao longo dos dez anos que se seguiriam, um fluxo incálculável de leis que estipulavam a divisão dos sul-africanos por raças claramente definidas. Essencialmente, as leis do apartheid podiam dividir-s em quatro áreas de atividade. Estas visavam

a) o intuito de garantir a «unidade de raças»,

b) a divisão física das quatro raças oficialmente definidas (negros, brancos, mestiços e asiáticos),

c) assegurar um domínio político efetivo dos brancos, e finalmente,

d) possibilitar um controlo abrangente sobre todos os negros em praticamente todas as esferas da vida social.

O que é o afrikaans?

O afrikaans foi a língua oficial do apartheid quando a comunidade boer conquistou o Estado e deu força de lei à separação administrativa dos habitantes da África do Sul por grupos raciais idioma que os primeiros colonos holandeses e franceses na África do Sul foram desenvolvendo em contacto com as comunidades da região. Incluindo os portugueses. Hoje, o afrikaans é uma variante do flamengo. Inclui uma mistura do holandês e alemão. (…) O afrikaans foi uma tentativa de o regime do apartheid substituir o inglês do império colonial pela língua dos colonos. (…) Mas se para os brancos o afrikaans era o depoimento da emancipação nacionalista, para a população negra era um símbolo de opressão racista. (…) chegou a ser obrigatório nas escolas públicas por todo o país.

Ouvi falar pela primeira vez sobre bôers em Moçambique, quando uma vez o Sr. Mateus, que chegou a trabalhar nas minas na África do Sul, partilhou comigo que os bôeres eram brancos extremamente racistas e exclusivistas, não considerando equivalentes, nem sequer, por exemplo, os portugueses ou os ingleses. Assim, naquela altura, nos comboios de transporte interno a carruagem de 1ª classe era destinada aos bôers, a de 2ª classe aos brancos e a de 3ª classe aos negros, indianos e aos mestiços.

O que são os bôeres?

Segundo a wikipedia:

Os bôeres  ou bóeres são os descendentes dos colonos calvinistas dos Países Baixos e também da Alemanha e da Dinamarca, bem como de huguenotes franceses, que se estabeleceram nos séculos XVII e XVIII na África do Sul cuja colonização disputaram com os britânicos.

A importância de Nelson Mandela (1918-2013)

Com sabedoria, Mandela nao cometeu os enormes erros dos processos de descolonização de Machel (em Moçambique) e Neto (em Angola), que alienaram as comunidades coloniais euroeias.

Se em Luanda e Lourenço Marques (atual capital de Moçambique designada Maputo), a mensagem foi “vão-se embora que esta terra é nossa”, em Joanesburgo e no Cabo, mesmo nos mais crispados momentos da transição, Mandela fez um convite “Fiquem por favor, vamos discutir os problemas com uma boa chávena de chá (fazendo referência a uma usual tradição britânica do chá, num tom absolutamente conciliador).

Os colonos sul-africanos retribuíram-lhe a cortesia, abraçando com generalizado entusiasmo um projecto nacional que poucos anos antes parecia impensável. Mandela soube acordar atitudes que na era da globalização parecem fora de moda: o patriotismo sereno e jubilante amor à terra. Ingredientes que transformam colonos em cidadãos.”

no Prefácio de Mário Crespo em Coleção A minha vida deu um livro, Nelson Mandela de Albrecht Hagemann; 2011 Ediçao Expresso

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«Neighbourgoods Market»

No coração da cidade, cercado por diversos edifícios cujas dimensões cobrem a cidade de sombras frias, algures perto de The Grove Braamfontein, avistamos uma varanda, cheia de gente a conversar, com copos de bebida na mão, ao som de música. Mas na altura não compreendemos que se tratava do Neighbourgoodsmarket! Tentamos conhecer um pouco do centro da cidade a pé, afastando-nos através de um beco que se abria entre dois prédios, mas logo desistimos da ideia, quando um polícia tenta afastar um traunsente mal intencionado e quando os restantes becos estão solitários e sem vivalma.

É realmente perigoso deambular por JB. Não é uma cidade onde o turista possa explorar e passear livremente. É uma cidade com uma atmosfera pesada, como se tivesse constantemente sob pressão, onde devemos caminhar atentos a todos os sinais. O medo está patente em todos aqueles que não se atrevem a caminhar para além do recomendado.

Não obstante, divertimo-nos no mercado. Haviam imensas bancas de comida e doçaria. Vistosamente deliciosas, tudo ordenamente arrumado e organizado, num sítio onde se misturam pessoas de diferentes nações e raças, culturas e línguas, mas todos com um objectivo em comum: abstrairem-se daquela tensão que existe em JB.

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A  garagem de um prédio no centro de JB serve para realizar o “Neighbourgoods Market”, um mercado de comida, artesanato e música que se realiza todos os sábados.

Descoberta de Diamantes

É curioso constatar que em pleno JB existe um edifício que tem a forma de diamante.

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Edifício espelhado em forma de diamante no centro da cidade de Joanesburgo.

É de conhecimento geral que África é um continente riquíssimo em recursos, incluindo de diamantes, cujas minas foram descobertas na cidade sul africana de Kimberley em 1867. Esta descoberta originou novas formas de competição e conflito na África do Sul, acentuando os já existentes entre os britânicos e os bôeres e entre os colonizadores brancos e os indígenas negros.

«Top of Africa»

Foi unânime que tinhamos que visitar um dos edifícios mais altos de África, e decidimos que aí iamos ver o pôr do sol. Foi portanto a nossa última paragem de sábado. Chegamos ao Carlton Centre, um edifício com 50 andares, que alberga um centro comercial nos pisos térreos. Na bilheteira compramos os bilhetes de entrada. Entrámos num elevador, que nos levou ao topo do edifício em menos de um minuto. Foi impressionante a velocidade do elevador.

Ainda faltava bastante para o pôr do sol, pelo que decidimos ir buscar um café ao centro comercial lá em baixo e voltámos a descer no elevador super sónico.

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A partir do topo do edifício do Top of Africa, um slogan intermitente passa a seguinte mensagem «Take Action, Inspire Change, Make Every Day a Mandela Day»

Transportes Públicos

Depois de fotografar a cidade a partir do topo do Carlon Centre, e com a intenção de ir espreitar algumas lojas do centro comercial de Carlton Centre, eu e a Hara deparamo-nos com a hora de fecho. Não tinhamos número de taxistas e andar pelas ruas de JB àquela hora não seria a certamente a melhor opção. O que fazer então? Depressa nos vimos nos passeios da cidade, sem nos afastarmos para zonas pouco movimentadas, mas o comércio lá fora também estava prestes a fechar.

Estava na altura de procurar um táxi, pagar 200R (ou mais) para nos levar de volta ao condomínio privado na Rivonia Road, onde os inovs de JB nos ofereceram os seus sofás e que ainda ficava a uns 20 minutos de carro.

Ao avistarmos uma amontoado de gente junto à beira da estrada, decidimos perguntar onde poderiamos apanhar um taxi. Mas na verdade ninguém nos soube muito bem responder e perguntavam-nos de volta “Where do you want to go?”. Decidimos ponderar realmente a ideia de irmos de transportes públicos. No final de contas ficava bem mais barato! Indicaram-nos que para ir para a Rivonia Road teriamos que apanhar primeiro um para a estação principal.

Chegadas à estação central, perguntaram-nos onde é que queriamos ir. Era um senhor com um ar apressado mas simpático e disse-nos para o seguirmos. Indicou-nos um chapa que estava para partir. Agradecemos e demos-lhe uns quantos rands em forma de agradecimento.

O autocarro que tinhamos que apanhar ainda estava parado e vazio e formámos uma fila. Quando o motorista apareceu, entrámos e ficámos a aguardar que os restantes assentos à nossa frente fossem ocupados. Eramos as únicas brancas na carrinha mas a nossa presença foi até ignorada.

Conclui que tudo depende da nossa atitude. No fundo após tanta precaução, a verdade é que nada nos aconteceu, apenas levamos mais tempo a chegar à Rivonia Road e pagámos muito menos! As pessoas foram simpáticas, estavam descontraídas e chegámos mesmo a voltar a repetir a proeza no dia seguinte!

 Outros mercados

Gostei bastante do conceito dos mercados em JB. O segundo que visitei foi igualmente estabelecido num parque de estacionamento arejado.

Regresso a Maputo…

O Sr. Mateus e a D. Regina esperaram por nós junto à estação central ferroviária de Josy. Estávamos de partida para Maputo, na esperança de ainda conseguir apanhar a fronteira de Ressano Garcia aberta (a fronteira fecha à 00h e volta a abrir só às 6h). Percorrer os 800 km que separam JB de Maputo em 6 horas era um desafio. O que nos valeu é que cerca de metade da autoestrada foi inteiramente renovada. Por causa do mundial? 2010, largas autoestradas foram construídas, permitindo muitas vezes conduzir acima da velocidade máxima recomendável.

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O Sr. Mateus ao volante e a D. Regina. A prepararmo-nos de volta para uma viagem de 8 horas e a torcer para chegar à fronteira antes da mesma fechar.

O leitor atento e interessado deverá estar-se a questionar neste momento onde estão as fotografias e a descrição do Soweto, da Casa do Mandela e da Orlando Power Station. Deverá pois ficar atento a um próximo post, onde irá ficar a descobrir ainda sobre a influência do regime do Apartheid no caminho de Ghandi na Índia. Pois de facto Mohandas Ghandi (1869-1948) viveu em Johanesburgo.

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