Passado e presente

Numa das principais artérias de Maputo, a Av. 25 de Setembro, erguem-se dois edifícios que fazem sombra aos demais, não só pelas suas cores garridas, que facilmente captam a atenção de um transeunte, mas também pela imponência das suas dimensões.

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Dois edifícios  erguem-se imponentes um ao lado um do outro na baixa da cidade. [Maputo, 25.03.2016]

À primeira vista dir-se-á que um não tem nada a ver com o outro. De facto, embora façam parte da mesma instituição, tem funções totalmente distintas e complementares.

Uma visita à baixa da cidade permite a rápida identificação da instituição a que pertencem.

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Edifícios da nova Sede de Moçambique na Av. 25 de Setembro [02.03.2016]

Trata-se da nova Sede do Banco de Moçambique, em substituição da antiga, que se encontra adjacente à torre mais alta, como é possível observar na imagem seguinte.

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Na madrugada do dia 4 de março de 2016, o trânsito ainda não se fazia sentir na sempre tão movimentada av. 25 de Setembro.

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O edifício do Standard Bank cercado pelas torres da nova Sede do Banco de Moçambique [Maputo 24.04.2016]

Este projecto pós-moderno faz parte do portfólio de projectos do gabinete de projectos HCA Arquitectos Consultores e Associados Lda, à cabeça do qual está um arquitecto português, há muitos anos a residir em Moçambique, Henrique Castro Amaro. A portuguesa Teixeira Duarte, empresa de construção civil, levou a cabo a execução deste projecto.

Este projecto é constituído pela torre de escritórios, a mais alta a azul, um edifício com 29 pisos que tem como objectivo albergar os serviços centrais do banco, e pelo edifício do silo (a laranja e vermelho), um edifício multifuncional cuja principal função é de parque automóvel, com 19 pisos, mas que se destina igualmente a lojas, restaurantes e escritórios.

Certo dia vejo escrito em letras maiúsculas “Obras faraónicas em tempo de crise” na capa do jornal O País, fazendo referência à nova Sede do Banco de Moçambique.

A seguinte imagem, assim como a principal manchete do jornal, retratam de forma fiel o sentimento que tenho relativamente a este tão grande fosso entre o rico e o pobre, entre passado e o presente.

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Ruína do prédio Pott em frente à Nova Sede do Banco de Moçambique. [Maputo, 04.03.2016]

Relativamente à ruína, várias vezes me questionei e inquiri acerca da sua história. Parecia-me o reflexo de tempos áureos de Lourenço Marques (antiga designação da atual cidade de Maputo). Questionava aos mais conhecedores da cidade, mas nunca obtive respostas suficientemente satisfatórias.

Foi num dos mercados que se realizou na Fundação Fernando Leite Couto (presidida pelo autor lusófono Mia Couto) que folheei – “PRESENTE E PASSADO – As histórias de Maputo” e me deparei com a história daquela encantadora ruína. Trata-se do “Predio Pott” e transcrevo parte do que li:

A descoberta de diamantes e ouro na África do Sul criou uma revolução mineira que impulsionou não só a actividade económica na África do Sul e em Lourenço Marques mas também a necessidade de se criarem fortes relações diplomáticas entre o Transvaal e Moçambique. Em finais dos anos oitenta do século XIX, o Presidente do Transvaal enviara um cônsul, o holândes Gerard Pott. Foi-lhe concedido um terreno na esquina da Avenida 25 de Setembro com a Avenida Samora Machel, onde por volta de 1900 foi erguido um centro comercial com escritórios de advocacia, consultórios médicos, um café e uma casa de fotografia famosa.”

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Imagem do livro “PRESENTE E PASSADO – As histórias de Maputo”,
retratando o prédio Pott.

Hoje, o antigo prédio Pott, de traços arquitectónicos singulares, serve de casa a muitos sem abrigo e a umas poucas lojas que surpreendentemente ainda sobrevivem no rés de chão, sem qualquer valorização histórica e arquitectónica.

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Ruína do prédio Pott em frente à Nova Sede do Banco de Moçambique. [Maputo, 22.06.2016]

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Na Av. 25 de Setembro a nova Sede do Banco de Moçambique (esquerda) impõe-se ao que resta do prédio Pott à sua frente (direita). [Maputo, 01.06.2016]

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Imagem da ruína Pott, obtida a partir do edifício de escritórios da nova Sede do Banco de Moçambique [Maputo, 22.06.2016]

Mas assim é a  história, assim como os seus edifícios.

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