Suazilândia – Onde está o mar?

A Christina veio-me visitar por quatro dias no início de Dezembro. Fui buscá-la ao aeroporto e rumámos a Mafra para ir buscar as suas três pranchas de Surf que lá tinham ficado com um amigo. Chovia, o ceú estava carregado, escuro e triste.

Já com as pranchas dirigimo-nos para a Ericeira, para a praia da Ribeira das Ilhas e o ceú abençou-nos com um esplendoroso sol. Surfámos. O sol brilhou. A chuva sumiu. A felicidade apoderou-se de nós.

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Praia Ribeira de Ilhas na Ericeira

No dia seguinte acordámos antes do nascer do sol . Chegámos à Costa da Caparica ainda noite cerrada e só vimos pescadores. Vestimos os fatos ainda com uma ténue claridade a inundar o ceú. Entramos no mar já de dia.  O sol brilhou, refletiu-se na água em tons dourados.

Mais tarde nesse dia a Christina começou a dar sinais de estar a ficar engripada. Já não voltariamos a entrar no mar até ela voltar a apanhar o avião para Berlim.

No terceiro dia voltámos à Costa da Caparica, chovia, estava frio. À sua frente num bares da Costa da Caparica com vista para o mar, folhiei a Corrier Internacional de 2009 e li “Suazilândia – O último monarca de África”. O artigo com o título “O último monarca de África” refere-se a Mswati III, o último monarca absoluto, que é há 30 anos o rei da Suazilândia [1], ou seja, desde 1986.

Cheia de felicidade partilhei com a Christina que enquanto vivi em Moçambique visitei esta monarquia e fui a um dos seus emblemáticos festivais Bush Fire, considerado um dos mais inclusivos e diversos do mundo. E lembrei-me, na Suazilândia não há mar.

A Suazilândia, onde as taxas de infeção por VHI/SIDA são das mais elevadas no mundo [1,2], é um país com uma superfície equivalente a um quinto de Portugal, está rodeado pela África do Sul a oeste norte e sul, e a leste por Moçambique.

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Na bandeira da Suazilândia, o vermelho simboliza as guerras do passado, o amarelo a riqueza mineral e dos recursos naturais; o azul a paz e a estabilidade e o escudo preto/branco – harmonia racial

De imeadiato aquela revista transporta-me para uma das viagens que fiz. Estou ao lado da Vera, que vai a conduzir. Atrás vai o João e a Tânia adormecidos. À frente segue uma Toyota de caixa aberta, na qual se sentam três jovens que conversam entre si. Pego na minha câmara fotográfica. Elas reparam. Começam a negar com as mãos. Não querem fotos. O sorriso delas desapareceu.

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Um toyota que levava três amigas que conversavam alegremente

Volta a olhar para a revista e leio o seguinte excerto:

“Em Setembro de 2008, aquando da celebração dos 40 anos de independência, milhares de manifestantes denunciaram o crescimento das despesas reais. «O rei faz várias viagens por ano, mandou construir uma dezena de palácios para as suas mulheres. Estas vão às compras ao Médio Oriente ou a Paris. Os seus filhos já não viajam em ‘charters’ mas em jactos alugados e passaram a frequentar escolas privadas no estrangeiro» enumera Muzi Mazuka”, do Open Society Institute, uma fundação que promove a democracia e é financiada pelo multimilionário americano George Soros.[1]”

Segundo este artigo de 2009, na altura o rei tinha 14 mulheres e 20 filhos [imagine-se quantas e quantos terá agora]. «As suas 14 mulheres e cerca de 20 filhos também têm exigências pessoais, que ele tem de satisfazer, tal como as dos irmãos e irmãs, cuja lealdade tem de comprar» [1].

O artigo incide acerca do secreto ordenado de Mswati III. Será suficiente para fazer face aos luxos?  O artigo continua «Financiando-se através da fundação Tibiyo Taka Ngwane, oficialmente responsável pela promoção das tradições suazilandezas, mas que também lhe serve de porta-moedas [1].»

Volto a ser transportada para uma das viagens que fiz, na qual estavamos perdidos e tentavamos encontrar a fábrica de velas artesanais da Suazilândia.

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Mulher que caminhava com caixa de fruta à cabeça, tenta localizar a direção para a feira de artesanato que estávamos à procura.

Velas? Sim! Velas magnifícas com formas de animais, coloridas de cores vibrantes, como este elefante aqui a seguir.

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Vela artesanal da Suazilândia em forma de elefante

Surpreendido(a)? Mas ainda há mais. Muito mais. Rinocerontes, bufálos… Ora vê!

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Vela artesanal da Suazilândia em forma de rinoceronte

Isto tudo a propósito das tradições suazilandezas, a partir da qual surge o boato que o rei MsWATI III apropria-se dos seus fundos para satisfazer os luxos das suas donzelas.

Continuo a ler

«A Suazilândia não é um país pobre. Os seus recursos? Minas de carvão e de diamantes, plantações de cana-de-açúcar (…)»

Lembrei-me das plantações de cana-de-açúcar que vi a partir da estrada.

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Plantações de cana-de-açúcar na Suazilândia

«(…), florestas. O rendimento por habitante é de 950 euros anuais, ou seja, o dobro da média dos países de África a sul do Sara. Mas esta saúde económica oculta desigualdades gritantes. Metade da riqueza está nas mãos de 10% da população, essencialmente da família real, enquanto dois terços dos suazilandezes vivem abaixo do limiar da pobreza. (…)»

Será que é por isso que as pessoas têm semblantes carregados? Veio-me à cabeça a imagem de várias pessoas a aguardarem de pé os transportes públicos.

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Suazilandezes aguardam autocarro local à beira da estrada, junto às bancas de artesanato.

Para além do ar carrancudo e pesado da maioria dos suazilandeses, em contraste com os moçambicanos, não raras as vezes que rejeitavam veementemente qualquer tentativa minha de fotografia, como se conhecessem tão bem estes malditos aparelhos.

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Mulher reage rapidamente à minha câmara fotográfica, levantando o braço como forma de contestamento.

A Suazilândia assim como a África do Sul, são países bem mais limpos em comparação com  Moçambique. Temos essa perceção logo após passar as fronteiras. Por exemplo, não há lixo nas bermas da estrada. Talvez porque desde 1903 a Suazilândia foi estabelecida como protectorado do Império Britânico, até à sua independência em 1968 [2].

Para além da menor quantidade de resíduos na rua, era necessário termos dupla atenção com a condução, pois era frequente depararmo-nos com uma vaquita no meio da estrada, vagueando livremente.

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Ao longo da viagem de carro pela Suazilândia, era preciso cautela com os ruminantes que atravessam livremente na estradas

Apesar da aparente fraca hospitalidade dos seus habitantes, é um país que tem muito a oferecer, desde a diversidade paisagística (vai desde savana a montanhas verdejantes), vários parques nacionais (que servem de refúgio para várias espécies animais), vilas tradicionais (que não são mais que réplicas das tradições deste povo) e um dos melhores festivais africanos de música – o Bush Fire (video).

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Paisagem suazilandeza

Muito ficou ainda por dizer. Muitas fotos por partilhar. A Suazilândia vai merecer com certeza uma segunda publicação.

Por agora fica a música de um cantor suazilandês que assisti no BushFire – Bholoja. De arrepiar. Aqui

Fontes:

[1] Courrier Internacional n. 166, Sébastien Hervieu, 28.07.2009

[2] Gonçalo Antunes, Maputo-Maputo – Um regresso na África Austral, 2010

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